Acheronta  - Revista de Psicoanálisis y Cultura
Olhar e pulsão na Traumnovelle de Schnitzler
Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares

Imprimir página

Discorrer sobre a(s) pulsõe(s), é sempre um desafio para qualquer um inserido no percurso psicanalítico. Mesmo aquele que tomou o termo como Grundbegriff de suas construções teóricas nunca chegou a conclusões definitivas no que concerne à sua conceitualizações ou tipificações. Na Trieblehre (doutrina da pulsão), como Freud a chamará no seu último escrito, o inacabado Esboço da Psicanálise (1940), ele define as pulsões como "As forças, que supomos atrás das tensões de necessidade do Isso (Es)". (1) Bom, a verdade é que nos principais textos em que Freud trabalha com as pulsões, o Isso ainda nem fazia parte do corpo teórico, da metapsicologia freudiana.

Mas algo aparentemente nunca muda no modo com que este termo opera na psicanálise: como suposição. Como "uma pura especulação" (FREUD, 1920) que cabe ao leitor decidir por sua aceitação. Um pouco como o Inconsciente, a Pulsão opera como um "suposto por detrás". Do Inconsciente só sabemos por seus deslocamentos e condensações, da pulsão só sabemos dela por seus ecos no corpo, na carne ou no fazer que produz um corpo. Estaríamos, portanto, mais próximos de uma coerência, talvez, se ao invés de procurarmos discorrer sobre as pulsões, fossemos observar onde ela se faz dizer.

Seguindo a trilha de Garcia (1991), pensando a pulsão como ficção, procuraremos as marcas desta pulsão em um corpus, a obra de um artista. Pensando como vicissitude pulsional possível a sublimação (FREUD, 1915), tentaremos ver os ecos desta força constante no erigir da obra daquele que Freud confessou encontrar, não sem assombro, na literatura como o seu duplo. Tão ingênuo seria tomar as noções de pulsão de vida e morte em seu sentido meramente biológico, quanto achar que trataremos aqui da pessoa do escritor Arthur Schnitzler. Mas constatados os limites de se tratar do pulsional no campo dos enunciados que buscava a metapsicologia freudiana, investiguemos como se dá esta relação no campo mais comprometido com a enunciação posto que "As ficções, diferentemente das hipóteses, não necessitam, serem confirmadas ou refutadas pelos fatos" (GARCIA, 1991, p. 50). (2)

Na célebre carta de Freud a Schnitzler o psicanalista diz tocar-lhe com uma "familiaridade estranha" (unheimlichen Vertrautheit) "sua profunda apreensão das verdades do inconsciente, da natureza pulsional do homem, a ruptura das certezas convencionais-culturais, o apego de seus pensamentos sobre a polaridade do viver e morrer..." (FREUD in KON, 1996, os grifos são meus). (3)

O escritor Klaus Mann, iria também afirmar: "No mundo deste Médico-Poeta, não há nada, nada, nada fora morte e sexo" (In WEINZIERL, 1994 p.10). (4) Observação que se repete de forma menos pejorativa em uma carta do crítico cultural Georg Brandes: "A metade de sua produção é dedicada a Eros, a outra a Tanatos" (Idem). (5)

A divisão freudiana estabelecida em Além do principio do prazer (1920), aparece em vista de sua observação clínica do que chamaria de Wiederholungszwang (compulsão ou coerção à repetição) No fazer de Schnitzler, que manifestava reservas quanto aos psicanalistas por considera-los "monomaníacos" (in GAY, 2001 p. 185), havia a corrente elaboração de uma única temática. A quase totalidade de suas novelas encerra o drama de uma personagem que por algum fator desencadeador externo, se vê num caminho para a Selbstfindung, uma espécie de encontro de si, de um Eu latente. Esta virada, por assim dizer, o arranca de uma não-vida, no sentido de que sua existência até o momento era isenta de acontecimentos, sua sexualidade domesticada, sua integridade física fora de perigo. Pois algo acontece na vida deste sujeito que o tira deste rumo e o coloca num caminho desconhecido. "Tenho que seguir meu caminho, nem que seja para a morte"( SCHNITZLER, 1926 p.46). (6)

Em ato ou fantasia, esta personagem passa a viver experiências que movem uma força desconhecida deste ser. Este contato feito por Eros só gera vida no sentido em que não a garante. Pelo contrário, a vida começa a partir do contato com o gozo ou com o desejo que levam o indivíduo ao seu auto-aniquilamento. Eros flerta com Tanatos, fazendo com que o caminho condutor a esse encontro do sujeito dê-se na ameaça da perda do Eu, pelo delírio, execração pública, fuga do convívio social e, por vezes através do suicídio.

Exemplo destas asserções é a Traumnovelle (Breve romance de Sonho), que há poucos anos teve sua versão cinematográfica no último trabalho de Stanley Kubrick. Apesar de, particularmente, não considerar que o filme fez jus ao livro que lhe inspirou, entendo que Kubrik foi feliz ao identificar o olhar como aspecto fundamental da obra. O título Eyes wide shut, seria mais bem traduzido por De olhos escancaradamente / arregaladamente fechados. Paradoxo que dá conta do olhar operante no fantasma da personagem: do olhar da mulher que não lhe pertence; o não olhar para seus anseios, sua sexualidade inibida; o olhar que lhe é dirigido sem que ele saiba a fonte, tão magistralmente encenado no baile de máscaras, onde os corpos estão descobertos, mas o olhar é velado.

Como diz Lacan se referindo ao Visível e o Invisível de Merleau-Ponty, "Eu só vejo de um ponto, mas em minha existência sou olhado de toda a parte".(LACAN, 1964, p.73) Na Traumnovelle, o protagonista Fridolin se surpreende com o relato da esposa sobre a atração do olhar dirigido ao oficial dinamarquês. Este olhar, examinar, avistar, verbos que, de página em página, se repetem como um automatismo, figura como objeto causa do desejo e como motor pulsional no livro. O olhar se apresenta como "a falta constitutiva da angustia de castração" (idem, p.74) "Isso transformava o indizível prazer do olhar num tormento insuportável do desejo" (SCHNITZLER, 1926 p.48). (7)

Se pensarmos a divisão metapsicológica proposta por Garcia-Roza (1994) entre o discurso do desejo e o discurso da pulsão, veremos que temos o primeiro caracterizado por Albertine e o segundo por Fridolin.

O desejo de Albertine aparece em seus sonhos, lembrando aqui a ambigüidade da palavra Traum que pode equivaler tanto à fantasia, ao sonho diurno (Träumerei) envolvendo Fridolin e o oficial dinamarquês, quanto o sonho noturno relatado ao seu marido. Por outro lado, Fridolin vê-se lançado no jogo da Tiquê, deste olhar que lhe vem de todas as direções, sem regra nem fonte definida, do real que emerge em sua aventura noturna. Real que o põe perplexo, questionando-se se estaria ele desperto ou alucinando: "E, outra vez, ocorreu- lhe que possivelmente já trazia no corpo o germe de uma doença fatal. (...) Será que na realidade não estaria deitado em sua cama... e tudo aquilo que acreditava ter vivido não fora mais que um delírio?!"(p.59) (8)

Ambos os discursos, no entanto vão se cruzar no fechamento, denotando que apesar de não se equivalerem na vida psíquica, tampouco há preponderância de um sobre outro em se tratando de desejo e pulsão. "A realidade de uma noite ou mesmo de toda uma vida, não significa sua verdade mais íntima." Diz Albertine, ao que acrescenta Fridolin: "Nem sonho algum, é totalmente sonho" (p.94). (9)

Mas, lembrando Garcia (1991), é preciso ter em mente que a psicanálise à diferença da ciência, não pretende emprestar novos conceitos a uma Weltanschauung, seus conceitos tem sentido, articulados aos demais, sendo tais incursões, como a que acabamos de fazer, mais interessante à compreensão da psicanálise através de um ficcionista, do que a uma exegese psicanalítica do texto de Schnitzler. Pulsão e desejo fazem parte do arcabouço teórico e, por que não dizer, mitológico da psicanálise. Pensando sua articulação poderíamos dizer com Lacan (1964), definindo a estrutura da fantasia, que "a pulsão divide o sujeito e o desejo, o qual só se sustenta pela relação, que ele desconhece, dessa divisão com um objeto que a causa".

Notas:

(1) "Die Kräfte die wir hinter den Bedüfnisspannungen des Es annehmen (…) "

(2) "Las ficciones, a diferencia de las hipótesis, no necesitan ser confirmadas o refutadas por los hechos"

(3) "Ihr Ergriffensein von den Wahrheiten des Unbewußten, von der Triebnatur des Menschen, Ihre Zersetzung der kulturell-konventionellen Sicherheiten, das Haften Ihrer Gedanken an der Polarität von Leben und Sterben..." Carta de Freud a Schnitzler em 14 de Maio de1922.

(4) "In der Welt dieser Dichter-Arzts gibt es nichts nichts nichts – Ausser Tod und Geschlecht".

(5) "Die Hälfte Ihrer Produktion ist Thanatos, die Hälfte Eros gewidmet".

(6) "Weiter meinen Weg, und wär’s mein Tod".

(7) "…das wandelte ihm die unsägliche Lust dês Schauens in eine fast unerträgliche Qual des Verlangens."

(8) "Und wieder fiel ihm ein, dass er möglicherweise schon den Keim einer Todeskrankheit im Leibe trug. (…) Lag er in diesem Augenblick nicht daheim zu Bett – und all das, was er erlebt zu haben gleubte, waren nichts als Delirien gewesen?!"

(9) "… die Wirklichkeit einer Nacht, ja dassnicht einmal die eines ganzen Menschenlebens zugleich auch seine innerste Wahrheit bedeutet" (…) Und kein Traum, ist völlig Traum."

Referências

FREUD, Sigmund – Abriss der Psychoanalyse (1940) in Gesammelte Werke – Chronologisch geordnet, Frankfurt am Main ALEMANHA; Fischer Verlag, 1999

FREUD, Sigmund – Jenseits des Lustprinzips (1920) in Gesammelte Werke – Chronologisch geordnet, Frankfurt am Main ALEMANHA; Fischer Verlag, 1999

FREUD, Sigmund – Triebe und Triebschicksale (1915) in Gesammelte Werke – Chronologisch geordnet, Frankfurt am Main ALEMANHA; Fischer Verlag, 1999

GARCIA, Ivanir Barp – La Sublimación como un recorrido de la pulsión, Buenos Aires, ARGENTINA, Universidad del Salvador, 1991

GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o Inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1984.

GAY, Peter – Schnitzler’s Century – The Making of Middle-Class Culture 1815-1914, Norton, Nova Iorque, 2002

KON, Noemi Moritz – Freud e seu Duplo: Reflexões sobre Psicanálise e Arte, São Paulo: Edusp, 1996

LACAN, Jacques – Do Trieb de Freud e do desejo do Psicanalista (1964) in Escritos, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro1995

LACAN, Jacques. O SEMINÁRIO- Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985 (1964).

SCHEIBLE, Hartmut - Arthur Schnitzler, Rohwohlt, Hamburgo, 1976

SCHNITZLER, Arthur - Die Traumnovelle in Eyes Wide Shut, Frankfurt am Main, ALEMANHA, Fischer Verlag, 1999

WEINZIERL, Ulrich – Arthur Schnitzler – Lieben Träumen Sterben, Frankfurt am Main, Fischer Verlag, 1994

Volver al sumario del Número 20
Revista de Psicoanálisis y Cultura
Número 20 - Diciembre 2004
www.acheronta.org